A decisão de negar a vacina contra herpes-zóster ignora evidências científicas e o sofrimento real dos pacientes.
Dor intensa, mal-estar, formigamentos que parecem agulhadas e, por fim, bolhas dolorosas que surgem no tórax, no abdômen ou até no rosto. Para quem desenvolve o herpes-zóster, esses sintomas são uma experiência real, muitas vezes incapacitante, marcada por dor intensa e impacto direto na rotina e na qualidade de vida. A doença, causada pela reativação do vírus varicela-zóster (VVZ), o mesmo que provoca a catapora, tem se tornado cada vez mais presente na vida de milhares de brasileiros, especialmente entre os mais vulneráveis. É diante desse cenário que a discussão sobre prevenção, diagnóstico e acesso à vacina se torna ainda mais urgente.
A decisão do Ministério da Saúde: critérios técnicos ou visão limitada? Quanto custaria a vacina para o SUS
A decisão do Ministério da Saúde de não incorporar a vacina recombinante contra herpes-zóster ao Sistema Único de Saúde (SUS), exige uma crítica firme sob a ótica da saúde pública e da política de envelhecimento no Brasil.
Apesar da Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no Sistema Único de Saúde (CONITEC) ter reconhecido a relevância da vacina na prevenção do herpes-zóster, a decisão de negar seu uso foi sustentada por critérios técnicos de custo-efetividade e impacto orçamentário, formalizada em 12 de janeiro de 2026. Segundo o governo, a incorporação da vacina na rede pública geraria impacto de R$ 5,2 bilhões em 5 anos ou R$ 1,2 bilhão por ano. Leia a íntegra do Relatório.
Mas o valor anual estimado do orçamento federal total é de R$ 6,54 trilhões, segundo o site do Senado Federal. Ou seja, o impacto, de fato, seria de 0,018% do orçamento anual do governo federal. Já o orçamento do Ministério da Saúde para 2026 é de R$ 271,3 bilhões. A vacina representa aproximadamente 0,44% do orçamento do Ministério da Saúde para 2026.
Programas e ações do próprio governo frequentemente apresentam custos iguais ou superiores ao valor necessário para a compra da vacina. Apenas no SIOP (Sistema Integrado de Planejamento e Orçamento), existem 124 programas previstos para 2026 na faixa de R$ 1 bilhão, valor semelhante ao investimento anual no imunizante. Além disso, diversas iniciativas isoladas superam esse montante, como o reajuste de 8% na remuneração dos servidores do Poder Judiciário, cujo impacto previsto é de R$ 1,77 bilhão, ou seja, substancialmente maior do que o custo da vacina.
Ora, a aplicação rígida e isolada desses critérios produz decisões que ignoram dimensões centrais da saúde do idoso, como funcionalidade, autonomia e qualidade de vida. Política pública não pode ser reduzida a uma análise contábil, especialmente em um país que envelhece de forma acelerada.
Tal decisão recebeu críticas de especialistas, parlamentares e entidades de saúde, que destacam a inconsistência de um governo que se declara comprometido com a vacinação, mas nega acesso justamente à medida mais eficaz de prevenção, deixando sem proteção quem mais precisa dela. Embora o SUS mantenha o tratamento e o acompanhamento dos casos de herpes-zóster, a ausência da vacina na rede pública deixa desprotegidos os grupos com maior risco de complicações, especialmente idosos e imunossuprimidos, contrariando evidências científicas amplamente consolidadas sobre a importância da imunização.
O impacto da doença na autonomia e na qualidade de vida
Você já enfrentou um caso de herpes-zóster? Ou conhece alguém que passou por isso? Se a resposta for não, sinceramente espero que continue assim, por você e pelas pessoas que você ama. Os relatos de quem viveu essa experiência são marcados por uma dor intensa, muitas vezes descrita como insuportável, capaz de comprometer e incapacitar a vida da pessoa. Em casos mais graves, surgem lesões dolorosas na pele, que evoluem para feridas e crostas, além de possíveis danos ao sistema nervoso, à visão e à audição. Para muitos pacientes, a neuralgia pós-herpética, a dor crônica e debilitante que pode durar meses ou até anos, é a consequência mais temida. É justamente para evitar esse sofrimento que a prevenção por meio da vacina se torna tão necessária.
O que é o herpes-zóster e por que preocupa idosos
O herpes-zóster não é um agravo menor no envelhecimento. A partir dos 60 anos, sua incidência aumenta significativamente e suas complicações estão associadas, além da crônica intensa, a perda de funcionalidade, comprometimento do sono e redução da autonomia, com impacto direto sobre a demanda por serviços de saúde e cuidados prolongados.
O envelhecimento acelerado do Brasil exige novas políticas públicas
O Brasil atravessa um acelerado processo de envelhecimento populacional. Entre 2010 e 2022, o número de pessoas com 60 anos ou mais aumentou 57,4%, atingindo mais de 32 milhões de indivíduos, o equivalente a 15,6% da população, segundo dados do IBGE. Em 2023, pela primeira vez, esse contingente superou o total de crianças e jovens de 15 a 24 anos. Esse cenário é resultado direto da combinação entre maior expectativa de vida e queda contínua das taxas de fecundidade, configurando uma transição demográfica que exige políticas públicas voltadas à proteção e ao cuidado da população idosa, incluindo estratégias preventivas como a ampliação do acesso a vacinas.
Herpes-zóster cresce no Brasil: dados alarmantes de internação
As internações por herpes-zóster têm apresentado crescimento consistente no Brasil ao longo dos últimos anos. Em 2023, foram registradas aproximadamente 2,6 mil hospitalizações decorrentes da reativação do vírus varicela-zóster, representando um aumento de 13,6% em relação a 2022, quando ocorreram cerca de 2,3 mil internações. Quando comparado a 2021, o crescimento atinge 31,6%, evidenciando a tendência ascendente da doença. Os dados fazem parte de um levantamento do O Globo, com base no Sistema de Informações Hospitalares do SUS (SIH), do Ministério da Saúde, acessados via DataSUS. Essa evolução reforça a necessidade de estratégias preventivas mais eficazes, como a ampliação do acesso à vacina. De acordo com o centro de controle e prevenção dos Estados Unidos, o problema atinge um em cada três adultos que chegam aos 75 anos naquele país.
Ainda assim, o governo optou pela não incorporação ao SUS sem considerar alternativas técnicas razoáveis. A ausência de estratégias intermediárias como incorporação focalizada por faixas etárias mais avançadas, inclusão de grupos de maior risco ou negociação ativa de preços sugere uma postura excessivamente tímida diante de um problema de saúde pública que afeta diretamente a dignidade do envelhecimento.
PL 3.411/2024: fortalecer a saúde da pessoa idosa é urgente
Essa decisão contrasta diretamente com os princípios estabelecidos no Projeto de Lei nº 3.411/2024, de minha autoria, que institui a Política Nacional de Atenção Integral à Saúde da Pessoa Idosa. A proposta reconhece que envelhecer com dignidade exige políticas estruturadas não apenas para evitar a mortalidade, mas para promover autonomia, funcionalidade, qualidade de vida e prevenção de agravos, considerando as especificidades biológicas e sociais do envelhecimento. O texto do projeto reforça que essa população deve ter garantidos direitos que concretizem sua dignidade humana, especialmente no que diz respeito ao acesso equitativo e contínuo à saúde.
O PL 3.411/2024 parte de orientações técnicas do próprio Ministério da Saúde, que reconhecem que a população idosa possui características clínicas e fisiológicas distintas, tornando inadequada a simples extensão de protocolos pensados para adultos mais jovens. A imunossenescência, processo natural de enfraquecimento do sistema imunológico com a idade, somada à perda de força, equilíbrio e reserva homeostática, eleva a vulnerabilidade dos idosos a infecções, complicações e eventos adversos. Por esse motivo, o projeto estabelece diretrizes claras para ações específicas de prevenção, promoção, proteção, diagnóstico precoce, tratamento e reabilitação, integrando saúde a dimensões como lazer, cultura, convivência familiar e participação comunitária.
A iniciativa também se alinha às recomendações internacionais e às metas da Década do Envelhecimento Saudável (2021–2030), promovida pela Organização Mundial da Saúde (OMS). É nesse contexto que o PL 3.411/2024 se torna fundamental: ele propõe uma política moderna, permanente e abrangente para orientar futuras regulamentações, organizar ações governamentais, fortalecer programas preventivos e garantir que decisões sanitárias, como a incorporação de vacinas para idosos, reflitam as necessidades reais dessa população.
A vacina é eficaz, segura e recomendada pelas autoridades científicas
A vacina recombinante contra herpes-zóster é eficaz, segura e aprovada pela Anvisa, com benefício clínico claro justamente nos grupos de maior risco. Além dos idosos, seu uso também é indicado em adultos imunossuprimidos, como pacientes oncológicos em tratamento e transplantados, o que demonstra que se trata de uma tecnologia direcionável, e não de uma intervenção indiscriminada.
Minha atuação na área da saúde tem se concentrado no fortalecimento de políticas públicas baseadas em ciência, tecnologia e inovação, especialmente no diagnóstico e tratamento de doenças raras, crônicas e imunológicas. Nesse contexto, mantenho participação ativa na Frente Parlamentar Mista de Inovação e Tecnologias em Saúde para Doenças Raras, na qual defendo a ampliação do acesso a terapias avançadas e a redução do tempo entre diagnóstico e tratamento para milhões de brasileiros afetados por essas condições. Durante minha gestão como Ministro da Ciência, Tecnologia e Inovações, instituí o Programa Genomas Brasil, voltado ao sequenciamento genético da população, com o objetivo de aprimorar a identificação precoce de doenças raras, cânceres e enfermidades cardiovasculares. No Senado, apresentei o Projeto de Lei nº 2.167/2025, que estabelece a Política Nacional para o Desenvolvimento da Medicina Nuclear, promovendo diagnósticos e terapias de alta precisão para doenças crônicas. Também compartilhei publicamente minha própria experiência com um processo autoimune que exigiu intervenções médicas após a missão espacial, reforçando a importância da imunologia e da compreensão dos mecanismos que regulam o sistema de defesa do organismo. Além disso, sou defensor do fortalecimento da pesquisa nacional em imunobiológicos, reconhecendo que a ampliação da capacidade científica e tecnológica do país é essencial para assegurar acesso a vacinas e tratamentos inovadores. Esses elementos convergem para demonstrar a importância de estratégias preventivas eficazes, como a vacinação contra o herpes-zóster, sobretudo para grupos mais vulneráveis.
Políticas públicas precisam enxergar o sofrimento que pode ser evitado. Negar a vacina é negar dignidade ao envelhecimento brasileiro
Ao negar o acesso à vacina contra herpes-zóster, o governo se afasta justamente dos princípios de prevenção, integralidade e proteção que fundamentam a política que buscamos estabelecer.
Persistir em decisões que desconsideram sofrimento evitável transfere para indivíduos, famílias e para a própria rede assistencial o custo humano de uma escolha governamental limitada. Reabrir o debate sobre a incorporação da vacina contra herpes-zóster, com critérios mais amplos e sensíveis ao envelhecimento, é uma responsabilidade ética e sanitária do Estado brasileiro.
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Acompanhe meus projetos e ações no Senado Federal.


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