Há 20 anos, a Missão Centenário levou o primeiro brasileiro ao espaço e abriu caminho para ciência, inovação e inspiração no país
Há 20 anos, no dia 30 de março de 2006, o Brasil viveu um momento histórico. Eu decolava do Cosmódromo de Baikonur, no Cazaquistão, rumo à Estação Espacial Internacional, tornando-me o primeiro astronauta brasileiro. Naquele instante, eu levava a bandeira do nosso país e o sonho de toda uma nação.

A Missão Centenário foi um marco que conectou o passado ao futuro. Seu nome homenageia os 100 anos do voo do 14-Bis, de Santos Dumont, símbolo do pioneirismo brasileiro. Um século depois, o Brasil voltava a fazer história, mostrando ao mundo que também é capaz de ocupar a fronteira do conhecimento.
Mas, acima de tudo, aquela missão carregava um propósito maior. Quando entrei na Estação Espacial Internacional, vivi um momento que jamais esquecerei. O astronauta americano que estava comigo fez um gesto simples, mas carregado de significado: abriu espaço para que eu entrasse primeiro. Ele sabia que, ali, não era um indivíduo que chegava. Era o Brasil. Era uma nação inteira representada naquele momento.
Durante oito dias, realizamos experimentos científicos em microgravidade, resultado de anos de dedicação de pesquisadores brasileiros. Mas o impacto da missão foi muito além da ciência. Ela mostrou, de forma concreta, que o Brasil pode, e deve, acreditar em si mesmo.

Os resultados desses estudos continuam presentes até hoje. Avanços em materiais, tecnologia térmica, medicina e agricultura nasceram ali, em um ambiente onde a ciência rompe os limites da Terra. O conhecimento produzido no espaço voltou em forma de inovação, contribuindo diretamente para melhorar a vida das pessoas.
A Missão Centenário também fortaleceu a presença do Brasil no cenário internacional, ampliando parcerias com agências como NASA, ESA e JAXA, além de impulsionar universidades e empresas a investirem em tecnologia e inovação.
Mas talvez o maior legado tenha sido outro. Nas escolas, milhares de jovens passaram a acreditar que também poderiam chegar lá. A história de um brasileiro de origem simples, que sonhou alto e alcançou o espaço, despertou vocações, incentivou olimpíadas científicas, projetos educacionais e iniciativas que continuam transformando vidas até hoje.
Foi justamente esse impacto que, anos depois, me fez tomar uma decisão importante: entrar para a vida pública. Percebi que a ciência, a tecnologia e a inovação não avançam apenas com conhecimento técnico. Elas também dependem de decisões políticas. Vi de perto o potencial extraordinário dos nossos pesquisadores, mas também os obstáculos que muitas vezes limitam o desenvolvimento do país.
Nesse caminho, um encontro marcou profundamente minha trajetória. Durante uma visita à NASA, tive a oportunidade de conversar com John Glenn, astronauta e senador americano. Ele me disse algo que nunca esqueci: se eu quisesse ajudar de verdade o desenvolvimento do programa espacial brasileiro, deveria considerar a política como instrumento de transformação.

Anos depois, esse conselho fez sentido. Aceitei o convite de Jair Bolsonaro para assumir o Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovações e, posteriormente, a missão de servir ao país no Senado Federal. Porque entendi que defender a ciência é defender o futuro do Brasil.
Hoje, duas décadas depois, eu olho para trás com gratidão, mas, principalmente, com responsabilidade.
A Missão Centenário não foi um ponto final. Foi um ponto de partida. Ela mostrou que o Brasil pode ir além. Que nossos jovens podem sonhar mais alto. E que investir em educação, ciência e tecnologia não é uma opção, é uma necessidade.
Se queremos um país mais forte, mais justo e mais preparado para o futuro, o caminho é o conhecimento, a inovação e a coragem para acreditar no impossível.
Porque, como eu sempre digo: o céu não é o limite. É apenas o começo.
Ad Astra.


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